O QUE É A

PRÁTICA AUTOCRIATIVA?

A Prática Autocriativa, é uma metodologia de desenvolvimento pessoal organizada pelo psicoterapeuta Welber Silva, que combina a facilitação da Modelagem Simbólica de James Lawley e Penny Tompkins com o Diálogo Autocriativo, abordagem dialógica baseada na Terapia Breve Focada em Solução (Solution-Focused Brief Therapy) de Insoo Kim Berg e Steve de Shazer.

A metodologia teve a sua inspiração no processo de transição que Welber vivenciou após se imergir na aprendizagem e prática da Linguagem Limpa e Modelagem Simbólica a partir do início de 2017. Ele já trabalhava há anos com a Terapia Breve Focada em Solução em conjunto com a Hipnose Clínica, e aos poucos, começou a inserir as perguntas limpas em suas sessões. Com o passar do tempo, percebeu que a maioria dos processos que fazia podiam ser facilitados com as perguntas limpas, e na medida em que aprendia e dominava mais a Modelagem Simbólica, deixava para trás o conjunto de técnicas que utilizava até então, em prol de um trabalho mais livre e generativo com os clientes.

A Terapia Breve Focada em Solução, entretanto, ao contrário das técnicas deixadas para trás, parecia se beneficiar do uso da Linguagem Limpa, pois a tornava ainda mais minimalista e precisa, atendendo aos próprios princípios preconizados pela Abordagem Focada em Solução. No final de 2018, instigado por uma publicação de James Lawley, Penny Tompkins e Alexandru Ioan Manea para o Journal of Experiential Psychotherapy¹, que analisava a Terapia Breve Focada em Solução com a perspectiva da Linguagem Limpa e da Modelagem Simbólica, Welber começou a elaborar um modelo que permitisse unir as abordagens, de forma que pudessem trabalhar de forma simbiótica, mas preservando as características de cada uma delas, como proposto pelos autores.

Dessa forma, em meados de 2019 nasceu o Diálogo Autocriativo – Abordagem Limpa Focada em Solução, o primeiro movimento de integração da Linguagem Limpa à Terapia Breve Focada em Solução. O conjunto de vetores (processos) da Abordagem Focada em Solução foram traduzidos através da filosofia limpa, e a modelagem passou a fundamentar os processos dialógicos com o uso de perguntas limpas e contextuais.

Naturalmente, ao trabalhar com a Modelagem Simbólica e o Diálogo Autocriativo na prática clínica, foi instintivo utilizar um ou mais vetores de ambas as abordagens numa mesma sessão. Se no Diálogo Autocriativo o cliente apresentasse uma metáfora, se iniciava a Modelagem Simbólica, abordagem apropriada para trabalhar no domínio simbólico de linguagem. E também, era coerente iniciar um vetor do Diálogo Autocriativo em algum ponto da Modelagem Simbólica ou mesmo antes ou depois, e assim por diante, como já se faz no processo de aplicação conjunta de metodologias limpas.

Como um produto dessa experiência, surgiu um framework ao longo do tempo que combinou harmoniosamente os vetores das abordagens, de modo que pudessem beneficiar o processo de mudança dos clientes durante a facilitação limpa. A esse framework, no final de 2021 se deu o nome de Prática Autocriativa.

O QUE É A TERAPIA BREVE FOCADA EM SOLUÇÃO?

A Terapia Breve Focada em Solução (Solution-Focused Brief Therapy) é uma abordagem terapêutica baseada em evidências, desenvolvida por Steve de Shazer e Insoo Kim Berg em colaboração com seus colegas do Milwaukee Brief Family Therapy Center entre o final da década de 70 e o início da década de 80.

Uma característica distinta da abordagem, é o fato de que foi desenvolvida empírica e indutivamente, baseada em observações concretas da prática clínica real ao invés de suposições prévias, teorias ou conjecturas. Berg, de Shazer e sua equipe passaram milhares de horas observando cuidadosamente sessões de terapia ao vivo e gravadas. Quaisquer comportamentos ou palavras por parte do terapeuta que levassem de forma confiável a uma mudança terapêutica positiva por parte dos clientes, foram cuidadosamente anotados e incorporados à abordagem. Na maioria das abordagens psicoterapêuticas tradicionais, começando por Freud, os profissionais adotam o “modelo médico” e presumem que é necessário fazer uma análise extensa da história e da causa dos problemas de seus clientes antes de tentar desenvolver qualquer tipo de solução. Os Terapeutas Focados em Solução veem o processo de mudança terapêutica de maneira radicalmente diferente. Seguindo as observações de Steve de Shazer, reconhecem que embora “as causas dos problemas possam ser extremamente complexas, as soluções não precisam necessariamente ser”.

A Abordagem Focada em Solução postula que um terapeuta pode ajudar os clientes a resolver seus problemas sem identificar os detalhes ou a fonte do problema. Para a abordagem, a avaliação do problema é desnecessária. Focar no problema pode desviar o cliente da solução, retraumatizá-lo, criar falsas memórias ou mesmo leva-lo a se imergir ainda mais no problema, como vários estudos atuais têm demonstrado.

O terapeuta, então, acredita fundamentalmente que a natureza da solução é completamente diferente da natureza do problema. Portanto, em vez de se concentrar no problema ou tentar resolvê-lo ou suprimi-lo, como ocorre nas terapias tradicionais, o Terapeuta Focado em Solução se concentra diretamente no resultado desejado do cliente, desenvolvendo um ambiente amistoso de criatividade, perguntando as suas melhores esperanças em relação ao processo e o auxiliando a fazer uma descrição detalhada de como seria a sua vida no dia a dia “após” o problema resolvido, o que geralmente resulta na descoberta de pequenas instâncias/evidências já existentes que indicam, de alguma forma, que já está caminhando em direção a esse futuro desejado. Assim, juntos, o terapeuta e cliente co-constroem um repertório comportamental e os recursos necessários para uma solução prática que o cliente possa implementar prontamente.

Como a mudança é uma constante na vida dos clientes, eles também podem ser estimulados a reconhecerem as exceções espontâneas que ocorreram em relação aos seus problemas, nos quais conseguiram serem bem-sucedidos ao lidar com eles ou superá-los, ainda que por pequenos períodos. Ao terem consciência dessas exceções, os clientes descobrem suas estratégias próprias e recursos naturais, capazes de sustentar uma nova perspectiva sobre si mesmos em relação às suas capacidades de gerenciar e superar suas demandas.

A abordagem é baseada em pontos fortes, apoia a autodeterminação dos clientes e é projetada para ajudar as pessoas a mudarem suas vidas da maneira mais rápida possível, geralmente em menos de 6 sessões. Em resumo, é uma abordagem de psicoterapia breve, focada em resultados, que estimula a esperança e emoções positivas para formular, motivar, alcançar e sustentar uma mudança comportamental desejada.

Princípios da Abordagem Focada em Solução 

A chave para a eficácia da Abordagem Focada em Solução é o foco na presença da solução e não apenas na ausência do problema. Isso permite que o cliente experimente como será um futuro sem o problema e quais etapas são necessárias para tornar isso uma realidade. Um terapeuta que trabalha dessa maneira é guiado por uma série de princípios. Insoo Kim Berg e Steve de Shazer enfatizavam que a Terapia Breve Focada em Solução não é simplesmente um conjunto de técnicas terapêuticas, mas representa uma maneira de pensar (de Shazer, 1985). Dominar os processos sem abraçar os princípios subjacentes da Terapia Breve Focada em Solução, não é útil para a abordagem e o tratamento em si.

Embora o desenvolvimento original da abordagem fosse ateórico, a prática da Terapia Breve Focada em Solução é consistente com as visões apresentadas por uma perspectiva sistêmica. A abordagem foi construída a partir do trabalho e ideias do psiquiatra Milton Erickson, do trabalho do Mental Research Institute e ideias da Terapia Familiar Sistêmica. Teoricamente, é influenciada pela filosofia do construtivismo social, filosofia da linguagem – especialmente no trabalho de Ludwig Wittgenstein e pelo pensamento Budista.

Os princípios centrais da abordagem são:

Se não estiver quebrado, não conserte. Isso significa que, se o cliente não relatar algo como um problema, o terapeuta não o fará. A conversa terapêutica irá focar apenas no que o cliente diz que é o problema e nada mais, não importa o quê.

Se funcionar, faça mais. Soluções estão ocorrendo ao nosso redor e as pessoas já estão resolvendo o problema que as levou à terapia. Um terapeuta focado em solução não julga a qualidade da solução de uma pessoa, reflete apenas se a solução é eficaz. Além disso, uma vez iniciada a mudança desejada, esse tipo de terapeuta ajuda o cliente a manter essa mudança.

Se não estiver funcionando, faça algo diferente. Não importa o quão boa uma solução pareça, se ela não funcionar, realmente não é uma solução. Como pessoas, tendemos a fazer mais daquilo que não funciona apenas porque parece bom ou é confortável. Devemos entender que, se a coisa confortável que estamos fazendo não está funcionando, geralmente é eficaz fazer algo diferente.

Pequenos passos podem levar a grandes mudanças. As pessoas costumam presumir que, quando vierem para a terapia, será esperado que façam grandes mudanças relacionadas ao problema. Isso não é verdade. Tudo o que precisamos são pequenos passos na direção certa. Esses pequenos passos vão se espalhar por sua vida até que o problema não exista mais. Uma vez que uma pequena mudança desejada é feita, ela inevitavelmente levará a uma série de outras mudanças desejáveis.

A solução não está necessariamente relacionada ao problema. Quase todas as outras formas de terapia seguem um formato que requer que o terapeuta entenda o problema para que uma intervenção possa ser desenvolvida para resolvê-lo. Na Terapia Focada em Solução, o terapeuta trabalha com o cliente para desenvolver a solução, uma descrição de como será a vida sem o problema. Uma vez que esse ideal seja descrito, o cliente e o terapeuta trabalharão no sentido de encontrar as etapas da vida real para desenvolver esse ideal. Como esse modelo funciona ao contrário, geralmente pouco ou nenhum tempo é gasto discutindo o problema que levou o cliente à terapia.

A linguagem de desenvolvimento de solução é diferente daquela necessária para descrever um problema. Muitas vezes as pessoas vêm para a terapia preparadas para explicar o problema ao terapeuta. Essa linguagem tende a ser negativa e descreve um passado. Um terapeuta focado em solução está mais preocupado com o futuro e como o futuro pode ser criado sem o problema. A tarefa é desenvolver uma solução em vez de descrever o problema.

Nenhum problema acontece o tempo todo; sempre há exceções que podem ser utilizadas. Não importa há quanto tempo uma pessoa está lutando com um problema ou o quão poderoso esse problema é, sempre há exceções e essas exceções podem ser utilizadas para criar um novo futuro.

O futuro é criado e negociável. As pessoas não são vistas como presas a um padrão de comportamento baseado em seu passado. O futuro é um lugar promissor onde todos nós podemos fazer algo diferente.